Roda de conversa articula literatura, expressão artística e diálogo comunitário para promover a leitura crítica da cidade, com destaque para as desigualdades de gênero e a violência contra a mulher.
Como podemos reconhecer e atravessar os muros invisíveis que organizam a vida em sociedade? Essa é uma das questões que orientam o projeto de cultura Cidade em Cena, desenvolvido pelo Ponto de Cultura Sinfonia na Cidade, da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Campus Erechim. A iniciativa promove encontros entre universidade e comunidade regional por meio da literatura, da arte e do diálogo, estimulando novas formas de compreender e experienciar o espaço urbano.
Integrante das ações culturais desenvolvidas pelo Ponto de Cultura Sinfonia na Cidade desde 2015, o projeto parte da compreensão de que a cidade não é constituída apenas por ruas, edifícios e espaços físicos, mas também por narrativas, memórias, relações sociais e barreiras simbólicas que influenciam as experiências cotidianas. Nesse contexto, a literatura é compreendida, a partir das reflexões de Antonio Candido, como um direito humano e uma experiência fundamental para a humanização, enquanto a perspectiva de Paulo Freire orienta práticas educativas baseadas no diálogo e na leitura crítica da realidade.
Literatura, arte e leitura crítica da cidade
Ao longo de 2025 e 2026, o projeto desenvolveu atividades com diferentes públicos da comunidade regional, articulando encontros de um clube de leitura da Livraria Agridoce, oficinas artísticas com estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFFS e ações educativas com alunos do ensino médio profissionalizante do Colégio Estadual Haidée Tedesco Reali.
As atividades foram organizadas em três frentes complementares, tendo a literatura como eixo para a reflexão sobre as relações sociais e as problemáticas contemporâneas.
No clube de leitura da Livraria Agridoce, os participantes compartilharam interpretações de obras literárias e estabeleceram conexões entre as narrativas e suas próprias experiências. Entre os títulos discutidos estiveram A Véspera, de Carla Madeira; Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói; A Mulher que Escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar; A Vegetariana, de Han Kang; e Tuareg, de Alberto Vázquez-Figueroa. A diversidade de leitores e perspectivas favoreceu a troca de experiências e a ampliação dos olhares sobre a realidade.
A partir da leitura de O Muro, de Jean-Paul Sartre, foi realizada a oficina “Entre Muros e Memórias”, na UFFS Campus Erechim. Por meio do desenho em carvão, estudantes de Arquitetura e Urbanismo foram convidados a expressar percepções, sentimentos e reflexões sobre as barreiras que atravessam a sociedade. A produção artística constituiu uma forma de elaborar visualmente questões que nem sempre encontram expressão imediata nas palavras.
Violência de gênero em debate
A reflexão sobre os muros simbólicos ganhou um recorte específico na roda de conversa “E se o tema da redação do ENEM 2026 fosse feminicídio?”, realizada durante a programação do Ponto de Cultura Sinfonia na Cidade na 27ª Feira do Livro de Erechim. A atividade reuniu aproximadamente 30 estudantes do ensino médio profissionalizante, com participação de professores da instituição.
A proposta articulou a discussão sobre violência de gênero à produção textual argumentativa, incentivando os estudantes a refletir sobre as desigualdades entre homens e mulheres, a naturalização de práticas violentas e a responsabilidade coletiva no enfrentamento dessa realidade.
Conduzida pela bolsista do projeto e mediada por uma estagiária de docência do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFFS, a atividade adotou o formato de roda de conversa, privilegiando a participação dos estudantes e a construção compartilhada de reflexões. A presença expressiva de estudantes do gênero masculino ampliou as possibilidades de diálogo sobre a participação dos homens na desconstrução de padrões culturais que sustentam desigualdades e violências.
Extensão universitária como espaço de formação e transformação
Além das contribuições para a comunidade, o projeto proporcionou experiências formativas às estudantes extensionistas, aproximando graduação e pós-graduação e articulando referenciais teóricos, práticas educativas e mediação cultural. Essa integração reafirma a extensão universitária como espaço de produção compartilhada de conhecimentos, formação crítica e fortalecimento dos vínculos entre universidade e sociedade.
As experiências realizadas evidenciam as possibilidades da literatura e da arte como dispositivos para interpretar a realidade, compartilhar experiências e problematizar estruturas sociais naturalizadas. Ao aproximar diferentes públicos de obras literárias e práticas expressivas, o Cidade em Cena cria condições para que a cidade seja percebida não apenas como espaço construído, mas também como território de disputas simbólicas, memórias e possibilidades de transformação.
A reflexão é sintetizada pela imagem do muro presente na obra de Sartre: uma barreira que, embora pareça intransponível, pode ser interrogada quando confrontada com outras experiências e perspectivas.
O Cidade em Cena reafirma, assim, o compromisso do Ponto de Cultura Sinfonia na Cidade e da UFFS com uma cultura que amplia horizontes, estimula o pensamento crítico e fortalece o diálogo entre universidade e comunidade. Ao colocar a literatura e a arte em circulação, o projeto convida a reconhecer os muros que atravessam a vida coletiva e a imaginar outras formas de habitar, narrar e transformar a cidade.